Caso relatado afeta o mediador

12 out 2015 | Categoria: Artigo

O mediador ao colocar sua humanidade diante do outro, ainda que sob seu controle, muitas vezes sem perceber ao ouvir o relato das  partes, pode subliminarmente demonstrar o seu desconforto com a situação.

O desconforto perceptível pela nossa linguagem corporal ou pelas perguntas colocadas aos mediandos, faz com que as partes sintam-se avaliadas, e sabemos que esta não é a função do mediador, que deve em princípio ser neutro e imparcial.

Se em sua avaliação o mediador estiver acima do desafio ou problema apresentado, ele será capaz de reconhecer que são várias as maneiras de se considerar a situação apresentada e isto lhe possibilita abstrair o pré-julgamento inerente a todos nós.

Ao colocarmos nossa humanidade abstraindo o desafio apresentado pelas partes, nos permitimos perceber a humanidade dos envolvidos, e assim será possível visualizarmos os caminhos possíveis para a solução, ainda que esta solução deva partir das partes envolvidas.. Tal postura  desfaz o nosso pensamento julgador, porque elimina a situação  controvertida para uma resolvida.

Quando um casal litiga pela guarda do filho, especular questionando  sobre o comportamento de cada um, não é o que os ajuda a decidir sobre a situação. No entanto, quando tiramos o foco deles e focamos nas prioridades da criança, eles são capazes de enxergar com mais clareza que as necessidades do filho são mais importantes que as próprias.

O pré-julgamento nada mais é do que a nossa pretensão de sermos melhores do que os demais, mascarando nossas falibilidades. Essa pretensão valida nossa humanidade, eis que as falhas de cada qual está adstrita a maneira como cada um de nós enxerga os fatos.

A visão do certo ou errado está embutida em nossas vivências, lembranças, não lembranças acontecidas em nossas vidas.

O mediador é um observador do caso em mediação que aplica questionamentos para que os mediandos busquem a solução do impasse, e como afirma Morin “não há observador puro, daí o observador/conceituador deve se observar e se conceber em sua própria observação”. (MORIN,E. ,p.30:2002).

Este pensamento de Morin é fruto de sua descoberta de que “toda história do passado sofre a retroação das experiências do presente, que lhe dão uma iluminação ou um obscurecimento particular”. (MORIN, E. p.30:2002).

O mediador consciente dessas premissas abre-se com facilidade às possibilidades e permite aos mediandos através de sua própria postura diante do caso, perceberem a viabilidade do que buscam.

Ao afastarmos o orgulho e percebermos a similaridade do outro para conosco, assim como apreciar as singularidades que nos acrescentam e informam a gama de “cores” com as quais estamos interagindo e possibilitando a formação de novos “tons”, conscientizamo-nos da grandeza da vida e assim revemos em nós mesmos que o mundo está repleto de possibilidades.

Ao afastar as resistências frutos de nossa humanidade nos abrimos e estamos atentos as mudanças inesperadas que acontecem e tornam possível a sinergia tão importante para o desenrolar da mediação.

Essa sinergia permite transcendermos os obstáculos “permitindo que uma visão de mundo completa se desdobre através de você.” (CHOPRA, DEEPAK.p. 160:2012).

O resultado da abstração do orgulho de ser quem eu sou, quando este orgulho está focado no equívoco de que eu sou melhor que o outro, propicia a interação de todos os envolvidos no procedimento da mediação.